25/10/2013 14:55 - Atualizado em 28/05/2016 15:53

Resenha

Conheça a alma humana em seu "estado natural" pelo olhar de Polanski

Tudo no filme parece um absurdo para quem observa de longe, mas a hipocrisia vivida pelos personagens sai da tela e entra pela porta da frente de nossas casas

Colaborador
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Arte de Escrever
Cena do encontro dos casais no apartamento (Foto: Divulga??o)

No dicionário da Língua Portuguesa, 'carnificina' significa “matança” ou também “massacre coletivo”. Não por coincidência, esse último significado se encaixa perfeitamente no filme “Deus da Carnificina” (2011), do polêmico diretor Roman Polanski. Carnage, nome original do filme, transmite a falsa percepção inicial de uma história sem grandes pretensões, fazendo o espectador por vezes se questionar o porquê daquela conversa mole se perdurar.

O cenário é o apartamento do casal Penelope e Michael, brilhantemente interpretados por Judie Foster e John C. Reilly, numa situação um tanto quanto desconfortável para ambos: eles recebem a “visita por obrigação” do casal Alan e Nancy para resolver de forma civilizada a briga dos filhos na escola, que resultou numa agressão com uma vara no rosto do filho de Penelope e Michael. O que parecia ser uma conversa amigável de sorrisos amarelos, rapidamente se transforma em um circo de horrores, enaltecido por comentários ofensivos e troca de farpas. 

O extraordinário do filme é a maneira simples, porém fiel, que retrata o ser humano e sua maneira de se relacionar com os outros. Em uma situação desconfortável, em que todos desejam acabar com aquilo de maneira rápida e civilizada, as máscaras logo caem revelando o lado podre de cada um, quebrando qualquer impressão ou estereótipo de educação que todos os personagens tentam causar inicialmente, a partir de um ponto de vista particular.

Penelope é a típica idealista chatonilda e controladora que acredita na pacificação dos homens e é quem propõe o encontro. Seu marido, Michael, é aparentemente um bundão, submisso à esposa, mas que logo de cara revela uma personalidade um tanto quanto esquisita por conta da história do hamster.

Já o casal Alan e Nancy vive uma verdadeira contradição: enquanto Alan é o inescrupuloso e objetivo grosseirão advogado da indústria farmacêutica, Nancy vive uma vida cheia de aparências, como uma mulher condescendente e racional, mas sua personalidade é revelada com alguns goles de malte. É o que acontece com todos na realidade. O álcool é utilizado como estopim para cada um mostrar sua verdadeira face, numa briga em que as duplas se invertem de acordo com a situação.

Ora os machistas atacam as mulheres, ora os casais trocam farpas um contra o outro, até o grande momento de descontrole, onde todos começam a jogar a própria intimidade no ventilador. Tudo parece um absurdo para quem observa de longe, mas a hipocrisia vivida pelos personagens sai da tela e entra pela porta da frente de nossas casas.

“Deus da Carnificina” é uma adaptação da aclamada peça teatral God of Carnage, da dramaturga francesa Yasmina Reza, que inclusive teve uma releitura brasileira em cartaz no inicio do ano. Contrariando a opinião de alguns críticos, em nenhum momento Polanski transformou o filme em teatro filmado, conservando as características fundamentais da linguagem cinematográfica como escolha de ângulos de filmagem e maneira linear e particular de se contar a história por meio da lente da câmera, revelando a visão particular do diretor, mesmo com poucos cortes e poucas mudanças de ambiente.

Vale atentar para a excepcional atuação de Christoph Waltz, que é uma delícia de assistir e se transforma em um dos grandes trunfos do filme. Enfim, “Deus da Carnificina” é um filme para assistir, engolir e digerir - processualmente. É mais que um tapa na cara da sociedade. Pode-se dizer que é uma bela vomitada de realidade diretamente na fuça da “cheia de aparências” humanidade ou na falta dela, no ser humano.

A colaboradora do Portal, Priscilla Kimura, é publicitária, atriz e vegetariana convicta. Geminiana, prefere o ímpar ao par, o duvidoso ao certo. Teimosa, indecisa e perfeccionista, adora livros, cinema e cachorros. Escreve porque só descobre o que sabe e acredita depois que lê o que escreveu.

Confira abaixo o Trailer do filme:

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