04/06/2013 14:03 - Atualizado em 28/05/2016 15:55

Entrevistas

Entrevista: A modificação corporal na cultura contemporânea

Da tatuagem a suspensão corporal, as intervenções mostram o atual diálogo e cenário das manifestações urbanas

Iveilyze Oliveira
Iveilyze Oliveira
Arte de Escrever

Você já parou para pensar como são vistas, como se sentem e o motivo de algumas pessoas serem adeptas das modificações corporais? A cada dia percebemos pelas ruas como essa prática se tornou comum e populariza uma cultura cada vez mais urbana. Pode ser uma tatuagem, alargador de orelha, piercing e até mesmo suspensões corporais que causam polêmica por parecerem agressivas ao corpo humano.

Para detalhar essas e outras práticas curiosas, as jornalistas paulistanas Nathalia Abreu e Priscila Soares escreveram Corpo Extremo – A Nova Face De Uma Cultura Modificada. Ao longo das 146 páginas, a obra tem um roteiro estruturado por meio de entrevistas com profissionais da área e pesquisadores, retratando o perfil das intervenções e como influenciam no processo cultural contemporâneo.

Em entrevista ao portal Arte de Escrever, Nathalia Abreu analisa os conceitos e técnicas das manifestações urbanas e mostra que as modificações corporais vão além dos pré-julgamentos.

Como surgiu a ideia de escrever Corpo Extremo com a também jornalista Priscila Soares? 

Nathalia. Sempre tive interesse pelo assunto. Em 2010, com a chegada do último ano de faculdade e a busca por um tema relevante, que sustentasse o projeto de conclusão de curso, achei interessante retratar esse cenário da modificação. Nossa ideia, de início, era produzir um documentário, principalmente pelo apelo visual que o tema tem, mas por restrições acadêmicas o livro se tornou mais viável. Tivemos uma boa orientação que nos norteou para essa segmentação das modificações extremas. Tiramos a nota máxima (risos)! Uma editora se interessou e lançamos a primeira edição na Bienal de SP em 2011.

Qual o principal objetivo ao falar sobre um tema polêmico dentro de um panorama cultural? 

Nathalia. Nossa maior preocupação foi passar o conhecimento aos leitores sobre as práticas. A forma como a mídia retrata a body modification tem essa tendência ao freak show, ao bizarro e sensacionalista. Entretanto, tentamos mostrar a todo o momento, de forma imparcial, que lidamos com seres humanos e suas preferências. Não se trata de algo pra ser visto com pavor, gerando atitudes preconceituosas.

Como definir a modificação corporal no mundo contemporâneo? 

Nathalia. A maioria das práticas, na verdade nada mais representam do que releituras, adaptadas à nossa realidade e aos nossos avanços tecnológicos, do que já era feito em sociedades primitivas, como alargar lóbulos, septos e lábios, além da suspensão corporal. Por isso há essa nomenclatura modern primitives (em português, 'primitivos modernos'). Quem pratica é muito seguro de que a maioria dessas intervenções são irreversíveis, e podem não ser muito bem aceitas pela sociedade.

Como essas modificações corporais foram acompanhadas perante o embasamento religioso, histórico e o da saúde? 

Nathalia. A visão religiosa foi dada a partir de um artigo online que encontramos de uma pessoa envolvida com a educação batista. Nesse artigo, já extinto, ela dizia que tatuagens e piercings não eram coisas de Deus e jamais seriam bem vistas. Ao procurá-la, ela se mostrou disposta a esclarecer o artigo, e explicou que o havia escrito com pouco embasamento e que seu pensamento já havia mudado em determinados aspectos. Queríamos entender essa visão religiosa, que tende a ser bem parcial e metódica. Historicamente tentamos mostrar de maneira breve um pouco da história, principalmente no Brasil, para nortear o leitor. No país tivemos, por exemplo, os índios botocudos, com pedaços de madeira inseridos no corpo - principalmente no lábio inferior. Mais tarde aconteceu a chegada das tatuagens na área portuária de Santos, com marinheiros e surfistas, e posteriormente a inserção das técnicas também em movimentos como o hippie, o punk e as raves, onde ocorreu principalmente a disseminação do que hoje já aceitamos mais (que são os piercings e tatuagens). Na saúde, buscamos profissionais das mais variadas áreas para nos fazer entender o que é o limite para essas intervenções e a que ponto elas podem ser consideradas como casos clínicos ou não, se podem prejudicar uma pessoa ou serem consideradas transtornos mentais.

Qual é a nova face do corpo ao extremo e da cultura modificada?

 Nathalia. Incisões subcutâneas, como chifres, a divulgação de práticas como a suspensão em eventos de grande sucesso, como a Virada Cultural de SP, a aparição de modificados em programas de TV direcionados ao público... Tudo isso insere as modificações num cenário de cultura urbana, muito atual, que começa a criar as tribos de pessoas que passam a aderir ao movimento, pessoas que simpatizam e respeitam, e também pessoas que abominam. Devido à divulgação citada acima, quem desconhece tende a achar tudo isso coisa de outro planeta, 'de gente louca'. Isso já despertou em nós como autoras inicialmente a sensação de que essas pessoas deveriam sofrer muito com o preconceito, com a falta de tolerância. Entretanto, ao entrar nesse mundo e conviver com essas pessoas, percebemos que não é bem assim que acontece: na verdade, essas pessoas não costumam se importar com julgamentos pré-concebidos ou olhares reprovadores nas ruas.

O livro tem um roteiro jornalístico para abordar a cena da modificação corporal. Como funciona atualmente esse processo no Brasil? O que diferencia de outros países?

Nathalia. No Brasil somos acostumados com o atraso em todos os níveis e, por questões educacionais, que formam o embasamento cultural, nosso povo não adere o lado estético diferente, mas sim ao padrão de beleza estipulado, com bronzeado e corpos sarados. Em entrevista com uma dermatologista especialista em transtorno dismórfico corporal no livro, percebemos exatamente este ponto: temos muitos padrões hoje 'printados' dos Estados Unidos e de propagandas que forçam uma visão do que é bonito. Somos referência mundial em estética, mas ainda não aprendemos a aceitar o que é diferente. Ao escrever esse livro inclusive, tivemos muita dificuldade em achar material, que servisse de fonte confiável, para escrever sobre, principalmente em nosso idioma. Muitos historiadores e psicólogos retratam o assunto por um viés cronológico, mas nunca dando voz a quem é responsável pela existência desse movimento: as pessoas.

Além das tatuagens e piercings, quais são as outras intervenções e as partes mais usadas do corpo? Quais são as técnicas utilizadas para evitar ou amenizar a dor? 

Nathalia. Tatuagens e piercings hoje já deixaram de ser chocantes, a não ser que apareçam em grande quantidade e em locais inusitados. Muitas vezes são parte da construção da moda e do estilo. O extremo, que nós retratamos, já leva mais o lado de técnicas bem mais invasivas, que cortam lascas de pele, como a escarificação, ou a queimam, como o branding. No livro também é citada uma técnica que até o momento do lançamento ainda não existia no Brasil, chamada eyball tattoo (tatuagem no globo ocular), rapidamente inserida no meio da modificação (e também abordada de maneira vaga pela mídia com pouca pesquisa sobre o tema, rs). No caso dos implantes subcutâneos, por exemplo, o cenário é outro porque dependendo da forma como são colocados ajudam a construir personagens, pois podem ser usadas como chifres ou protuberâncias que remetam a animais, como o lagarto. Não dá pra dizer quais locais são mais utilizados, porque isso vai da preferência de quem o faz, mas logicamente dá para se pensar que os implantes são mais utilizados em áreas de grande visibilidade e colocação mais acessível, como cabeça e braços, mas há também quem utilize-os no pênis, no tórax... Varia muito do tipo de modificação, das motivações pessoais e também das restrições corporais.

No livro, há mais de 30 entrevistas com médicos e adeptos dessa arte. Como são vistas e como se sentem as pessoas que alteram seus corpos por meio dessas intervenções?

Nathalia. Essas pessoas não acham que isso seja muito diferente do comum, pois acabam se inserindo em um universo de eventos e num estilo de vida, que resulta em grupos e faz com que interajam mais entre si. Além disso, não percebem olhares de estranheza e não se incomodam nem um pouco com isso. Fazem cada intervenção única e exclusivamente porque aquilo o traduz como pessoas, no que eles acreditam e como se sentem.

Na década de 90 ocorreu uma explosão de estilos e práticas. Atualmente a modificação corporal é observada também como uma prática erótica, teste de coragem ou ritual de passagem. Como diferenciar esses conceitos e evitar um certo julgamento? 

Nathalia. Os tempos mais modernos são os grandes responsáveis por essa explosão, com certeza. A diferenciação dos motivos pelos quais são feitas as práticas mais extremas só pode ser dada por quem as faz. Tem gente que se suspende porque gosta de expor o corpo aos mais variados limites. Outros dizem sentir uma sensação inexplicável, uma paz de espírito tremenda ao serem expostos a dor. E muita gente acha isso sexy, daí o apelo erótico. Temos depoimentos de pessoas que inserem implantes no órgão genital porque isso dá mais prazer. A questão do julgamento é mais complexa e ao mesmo tempo simples, porque se formos encarar de forma sócio-científica, dá pra buscar explicações culturais e de formação do indivíduo que o levam a encarar ou não essas práticas com normalidade. Por outro lado, toda atitude do ser humano está suscetível a julgamentos e estamos acostumados com isso.

Qual o tipo de análise você espera que o leitor faça sobre o livro? 

Nathalia. É isso que a gente busca despertar nas pessoas, a análise crítica, mas com embasamento. É a mesma coisa que falar mal de uma comida sem nunca ter experimentado. É fácil ver um apresentador de televisão maluco gemendo e fazendo caras e bocas com uma trilha de filme de terror pastelão, num programa de domingo, pedindo para o câmera dar close nos ganchos fincados no joelho de alguém suspenso. Entretanto é muito difícil ver uma discussão saudável, que desperte nas pessoas a vontade de entender ou aceitar esse mundo desconhecido. 

E aos interessados em saber um pouco mais sobre essas práticas corporais, como adquirir o livro?

Nathalia. Corpo ao Extremo pode ser adquirido nas livrarias, como a Cultura.

- Em contato direto com as autoras pela nossa fanpage no Facebook: https://www.facebook.com/LivroCorpoAoExtremo

- Por e-mail: livrocorpoaoextremo@gmail.com (também diretamente com as autoras)

-Pela loja online da própria editora: http://inhousestore.com.br/comportamento/modificacoes-corporais/corpo-ao-extremo.html

O custo em qualquer um dos canais de venda é R$ 31,90 + taxa de frete para envio (se necessário).

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