03/07/2013 13:19 - Atualizado em 16/05/2014 10:25

Coluna

"Exercícios de Caligrafia: Saramago Quase" traz ensaio polifônico sobre obra do escritor

Professor Francisco Maciel Silveira fala sobre novo livro que trata do perí­odo formativo da obra de José Saramago

Daniela Guedes
Daniela Guedes
Arte de Escrever
O autor Francisco Maciel Silveira (Foto: Divulgação)

Definitivamente uma obra em que se consegue juntar várias vozes em torno de um grande legado. Pontos de vista conflitantes e uma ideia gloriosa de Francisco Maciel Silveira, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP e autor de “Exercícios de Caligrafia: Saramago Quase” (Editora CRV/2013).

Um livro que se propõe a percorrer a obra ficcional e teatral do escritor português, José Saramago (2010) no período que vai de 1947 a 1980, ou seja, o pouco estudado e pouco conhecido período formativo. Francisco Maciel conversou com o Arte de Escrever e deu uma aula sobre este seu novo trabalho. Vamos conferir?

“Exercícios de Caligrafia Literária: Saramago quase” foi concebido como um volume que reúne ensaios de diferentes autores em torno da ficção e teatro de José Saramago, escritos entre 1947 e 1980. Você poderia nos contar um pouco mais deste trabalho?

Francisco Maciel Silveira. Quis compor um volume bakhtinianamente polifônico, ou seja, queria vozes diversas e pontos de vista conflitantes. Para tanto imaginei ensaístas fictícios, (personagens, pois), cada um tratando de um livro do período formativo saramaguiano: 

Manuel Pelourinho, diplomata (romance Terra do Pecado), que critica com punhos de renda e luvas de pelica; Apolo Constatinos Jr., astrônomo e antropólogo (prosa poética O ano de 1993,); F. Khom, microempresário e latinista (romance Manual de Pintura e Caligrafia), José Roberto Jauss Iser, jornalista, enófilo e gourmet (contos Objecto Quase), Ângelo Ruzzante de Pádua, encenador e crítico teatral (peça A noite),  Legenda Vaz Est e Samir Savon, doutores em Letras pela USP e professores (peça  Que farei com este livro?), apontando o diálogo intertextual de Saramago com suas fontes e Romeu Raneman da Silva, médico homeopata (romance Levantado do chão).

É impressão ou o leitor também pode notar uma sutil ironia nestes ensaístas escolhidos pelo senhor?

Francisco Maciel. Para além da profissão, a ironia se instala também no nome de alguns ensaístas. O homeopata chama-se naturalmente Romeu Raneman e sua crítica a  Levantado do chão  baseia-se no princípio homeopático do similia similibus curantur, servindo-se  ipsis literis de palavras usadas pelo próprio Saramago numa crítica que ele, Saramago, fizera: 

“[...] a fórmula rodeou-se de um barroquismo quase impenetrável, exemplo significativo de um estilo à procura de assunto [...]”. O ensaísta, que é encenador e crítico teatral, deve lembrar o dramaturgo e ator seiscentista italiano Ângelo Ruzzante; o jornalista e enólogo deve lembrar Jauss e Iser, criadores da Teoria da Recepção. Afinal, minha intenção era também mostrar de que modo cada um dos ensaístas recebia a obra de Saramago. Para intensificar o conflito, inventei  Cartas à Redação, foro e desaforo do leitor,  onde leitores interagem seja discutindo as formulações críticas, seja trazendo contribuições acerca dos livros examinados e do contexto histórico-literário, seja discordando entre eles.

Qual foi a principal razão pela qual o Sr. Resolveu abordar justamente o período dito formativo da obra de Saramago?

Francisco Maciel. A partir de Levantado do chão, a obra de Saramago passou a ser muito estudada. Sobretudo quando ganhou o Nobel.  Eu mesmo tenho um outro livro acerca do Saramago:  Saramago – Eu-próprio, o Outro? Lançado, em 2007, pela Universidade de Aveiro, coleção coordenada pelo Prof. Dr. António Manuel Ferreira. Nele examino o que chamo de trilogia ôntica e ontológica, formada pela Caverna, Todos os nomes e O homem duplicado. Foi exatamente por ser pouco conhecida que resolvi estudar a fase primeira da obra de Saramago, seu período de formação, que vai de 1947 a 1980. Não queria “chover no molhado”.

Algum motivo especial para este título “Exercícios de Caligrafia Literária: Saramago quase”?

Francisco Maciel. Nessa primeira fase, encontramos seus  Exercícios de Caligrafia Literária, experimentando a poesia, o conto, o romance, o teatro, em busca de uma dicção própria, que, baseada na oralidade, acabará tornando-se em marca registrada de seu relato e estilo. (Mesmo aqui, em matéria de estilo, Saramago não inventou a roda. Esse registro oral do relato já tinha sido usado por Luís Sttau Monteiro, de 1969 a 1980, com sua personagem Guidinha...) 

É o momento, também, em que temos um Saramago Quase, ou seja, esboços da obra futura que se erguerá com base no diálogo intertextual, no engajamento político, no gosto pelo alegórico, fantástico e maravilhoso ― ingredientes que, inscritos nesse primeiro momento, hão de fecundar sua ficção futura. 

Quais as principais diferenças na obra do escritor, analisando-se a época relatada no livro e os tempos atuais?

Francisco Maciel. Como disse na resposta anterior, nessa primeira fase Saramago está à procura de seu rumo literário, experimentando fôrmas e gêneros. São escorços da obra futura, alguns desenhos ainda toscos, outros com riscos e traços a prognosticar afrescos de talento. Já sua segunda fase, iniciada em 1980 com Levantado do chão, e que se estende até 1991 com O evangelho segundo Jesus Cristo, revela-se marcada pelo diálogo com as fontes históricas, a rediscutir as fronteiras nem sempre nítidas entre a História e a Ficção. Finalmente, uma terceira fase, de 1995 (Ensaio sobre a cegueira) até seu último romance (Caim, 2009) caracterizada pela intemporalidade ou universalidade das fábulas alegóricas, já exercitadas em seu período formativo. 

A obra lançada em 2013 (Foto: Divulgação)

O que o senhor levou em conta na escolha das epígrafes que antecedem os capítulos de “Exercícios de Caligrafia: Saramago Quase”?

Francisco Maciel. Todas inventadas por mim, tiradas de livros imaginários (ou, se preferir, inexistentes), dialogando, crítica e ironicamente, com o vezo que Saramago tinha de inventar epígrafes. Claro que tais epígrafes minhas funcionam como um desafio para o leitor, que deve manter-se aberto à crítica que vai sendo formulada. Não é porque temos um autor canônico e consagrado que a crítica deva ser cega, mantendo os olhos fechados às evidências. Afinal, o crítico que sabe ler, deve começar por soletrar as entrelinhas. A idolatria cega é sinal de reverência pouco inteligente. Vamos degustar as epígrafes? 

A que encabeça o livro: 

Abre teu olho. Só não enxergas por mantê-lo fechado às evidências. (Livro do Desconcerto)
Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas. (Livro do Desconcerto)
Toda Cassandra tem o Apolo e os incrédulos que merece. (Provérbio Sibilino)
Capricha no exercício de caligrafia. Terás a letra tão legível quanto a que te serve de modelo. (Num Manual de caligrafia, autoria anônima)
Os enigmas da Esfinge sempre hão de revelar diabetes nos pés inchados de Édipo. (Livro dos Arcanos)
Durante as noites, a luz apenas dorme. Cabe a ti despertá-la. (Livro do Desconcerto)
Na leitura, os quatro-olhos têm a vantagem das lentes corretivas. (Inquisições e disquisições literárias)
Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está procurando o siso. (Incunábulo dos Apólogos)

Como espero que se perceba, as epígrafes também desempenham importante função na concepção crítica do livro.

O que os leitores poderão encontrar de mais interessante na leitura desta obra?

Francisco Maciel. Além de “ser ensaio  parecendo ficção aqui e ali”, em  Saramago Quase pretendi, como já disse, também um ensaísmo polifônico, bakhtiniano (ah a costela professoral!), com vozes conflitantes e divergentes, tanto de ensaístas quanto de leitores. Foi a forma encontrada para manter a isenção crítica do Autor do livro, que, parafraseando Cipriano Algor, em A caverna, dirá: “... as provas estão aqui, cada qual tirará as conclusões que achar justas, eu já tirei as minhas.”

O Senhor se refere muito à obra de Saramago, intitulada “Objecto Quase”, pouco conhecida do grande público. Qual a importância desse título na carreira e, posteriormente nos livros seguintes do autor?

Francisco Maciel. No livro de contos  Objecto Quase, reunião de seis narrativas (“Cadeira”, “Embargo”, “Refluxo”, “Coisas”, “Centauro”, “Desforra”), já encontramos as perspectivas política, fantástica, alegórica que estarão presentes nos livros posteriores a 1980. Além disso, já se percebe a incipiência de uma reflexão existencialista em torno do Ser e do indivíduo, 
que reaparecerão em  Todos os nomes,  Ensaio sobre a cegueira,  Ensaio sobre a lucidez, Intermitências da morte. Ademais, gosto muito do título do volume, a soar esfíngico: Objecto Quase. (É natural que a epígrafe do ensaio que trata de Objecto Quase seja: Os enigmas da Esfinge sempre hão de revelar diabetes nos pés inchados de Édipo. (Livro dos Arcanos)

Existiu algum momento em que Saramago foi mais incompreendido pela sociedade e pela crítica especializada? Se realmente existiu, de que maneira este fato repercutiu no trabalho do autor português? 

Francisco Maciel. Não obstante o gosto da maioria, Saramago não é nem foi unanimidade (pelo menos dentre alguns professores que conheço). Afinal, como dizia Nelson Rodrigues, não queira unanimidade, pois toda unanimidade é burra. Não obstante eu considere Saramago um escritor competentíssimo, faço-lhe, contudo, algumas restrições ― como o seu vezo de dialogar intertextualmente com modelos literários, sem nem sempre revelar a fonte. 

Escamoteando-a, passa ao leitor que a ideia é originalmente dele. Exemplos? A peça  Que farei com esse livro?   inspirada e construída, fundamentalmente, em texto de Aquilino Ribeiro, sem que cite a fonte de inspiração.  Todos os nomes, que considero o melhor livro de Saramago, constrói-se a partir de ideias e conceitos de Jung e Heidegger, sem que ambos sejam explicitamente referidos. Ora, quem não conhecer Jung e Heidegger dará todo o crédito a Saramago, achando que foi ele quem inventou a roda e o fogo.

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