15/03/2013 08:46 - Atualizado em 04/05/2013 16:29

Entrevistas

Receita de sucesso: redator-chefe de Época fala sobre o jornalismo atual e seus desafios

João Gabriel de Lima: “Jornalismo é, em última análise, prosa de não-ficção. E prosa de não ficção, quando bem feita, é tão literatura quanto qualquer outro tipo de literatura”

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever

Redator-chefe da revista Época, João Gabriel de Lima, 48, é jornalista por formação e possui dois livros publicados (O Burlador de Sevilha, publicado em 2000 pela Cia das Letras; Carnaval, publicado em 2006 pela Editora Objetiva). Em conversa com o Arte de Escrever, falou sobre a profissão de jornalista, as dificuldades e desafios da profissão, a “receita de sucesso” para se realizar um trabalho de qualidade e diferenciado. João também é professor da FAAP SP e diz que costuma aprender com os questionamentos dos alunos. Além disso, desfez alguns mitos em torno do jornalismo literário e deu dicas preciosas de cultura.

Como nasceu sua paixão pelo jornalismo?

Eu me apaixonei pelo jornalismo aos poucos, e depois que já trabalhava na área. Sempre gostei de literatura e de texto bem escrito. Trabalhando em jornal e revista, descobri que o texto jornalístico, quando feito com ambição autoral e numa cultura editorial exigente, pode atingir um alto nível. 

Como foi seu contato com o jornalismo cultural?

Paralelamente ao curso de jornalismo eu me formei em piano e estudei literatura dramática na universidade. Depois de uma experiência como repórter de polícia na Folha, fui para a Veja e lá me encaminharam para a área de cultura. A justificativa era essa formação prévia. Trabalhei na área de cultura na Veja durante uns dez anos, e depois mais cinco anos como diretor da Bravo!. O que significa que passei grande parte da minha carreira no jornalismo cultural.

Quais os maiores desafios da profissão e como você enxerga o mercado de trabalho atualmente?

Os grandes desafios da profissão são os mesmos desde que o jornalismo foi inventado. No caso do jornalismo de texto, do qual estamos falando aqui, eles são: conseguir informação exclusiva -- o furo --, apurar exaustivamente, e a partir da apuração exaustiva, criar textos autorais. A dificuldade atual do jornalismo é de modelo de negócio. Como existe uma crise, apenas os melhores profissionais e melhores veículos conseguirão espaço e manterão esse espaço. O que significa que o jornalista tem que fazer um jornalismo ainda melhor -- com mais furos, mais apuração detalhada, mais texto de alto nível, sempre com um estilo próprio.

Cite três referências do jornalismo cultural.

Vou citar três jornalistas que atuam na revista americana The New Yorker. Os veteranos Calvin Tomkins e Louis Menand, e Alex Ross, o grande crítico de música da nova geração.

João Gabriel é jornalista e escritor. Redator-chefe da revista Época

E quanto ao jornalismo literário? O que mais o atrai?

Não gosto muito da nomenclatura "jornalismo literário". Jornalismo é, em última análise, prosa de não-ficção. E prosa de não ficção, quando bem feita, é tão literatura quanto qualquer outro tipo de literatura. E a prosa de excelência sempre me atrai.

O que acha da nomenclatura do gênero? Como vê essa relação entre o jornalismo e a literatura?

Apesar de questionar a nomenclatura, acho que o nome "jornalismo literário" cumpre uma função. Ele chama a atenção para o que seriam os clássicos do jornalismo -- que, no Brasil, foram publicados numa série chamada "jornalismo literário". Na minha época de faculdade ninguém lia Gay Talese, Lillian Ross, Truman Capote etc. E para um jornalista é tão importante ler esses caras quanto é importante para um escritor ler Flaubert ou Proust, Machado ou Eça. Claro que o jornalista tem que ler também Flaubert, Proust, Machado e Eça.

De que forma você acha que o jornalismo literário pode afetar quem lê esse tipo de texto? E como acha que ele afeta o próprio jornalista?

Quanto melhor o jornalismo, maior o impacto que ele pode ter junto aos leitores e à sociedade em geral. Mesmo numa época de crise de modelo de negócio como a que vivemos hoje. 

Como você estabelece a diferença entre o jornalismo tradicional e o literário?

Não vejo diferença. Repito. Jornalismo é prosa de não-ficção, e a boa prosa de não-ficção é literatura.

Cite três referências do jornalismo literário.

Repito: Gay Talese, Lillian Ross e Truman Capote. E acrescento Joseph Mitchell, John Hersey e Tom Wolfe. Os clássicos, enfim.

Quais são as maiores dificuldades ou desafios da profissão de jornalista?

As maiores dificuldades são as inerentes à profissão. Conseguir notícia exclusiva é difícil. Apurar exaustivamente, checando com esmero cada informação, dá um tremendo trabalho. Criar um texto narrativo ou dissertativo em cima das informações apuradas, que seja ao mesmo tempo honesto e tenha estilo próprio, também é trabalhosíssimo. A satisfação que esse trabalho propicia, no entanto, é recompensadora. Considero o jornalismo uma das profissões mais difíceis que existem, e ao mesmo tempo uma das mais prazerosas.

Você se sente realizado também como professor?

Dar aulas obriga a pensar na profissão. E é uma oportunidade de aprender com os questionamentos dos alunos.

Quais veículos podem ser uma boa fonte de pesquisa e ensino para os amantes do jornalismo cultural e literário?

Em inglês, vou citar The New Yorker, The Economist e The Vanity Fair, revistas que se destacam pelo texto. Em português, destaco Época e Bravo!, meus dois empregos mais recentes -- que são publicações onde criar e publicar textos bem apurados e autorais é uma prioridade. Todas essas publicações têm sites bastante interessantes.

Conte um pouco da sua experiência na Revista Bravo!. Quais conquistas alcançou durante o tempo em que trabalhou lá?

Nos meus cinco anos de Bravo!, participei de uma equipe cujo objetivo era combater o clichê do jornalismo cultural -- que é a resenha em cima da agenda -- para partir para uma abordagem mais inovadora e ambiciosa, baseada em grandes reportagens, perfis e ensaios jornalísticos. O aumento de circulação e os prêmios que ganhamos atestam que a experiência foi bem sucedida. Eu tenho muito orgulho de ter participado dessa equipe.

Como tem sido o trabalho realizado como redator-chefe na Revista Época? Sintiu muita diferença na proposta de trabalho dela?

Tenho também um tremendo orgulho de participar, em Época, de uma equipe que busca o jornalismo autoral de excelência. Não acho que proposta dela seja muito diferente da minha experiência anterior. O ponto central, sempre, é fazer bom jornalismo. Em Época cobrimos uma gama maior de assuntos, o que torna o desafio ainda mais fascinante.  Temos o furo como prioridade e um foco em grandes coberturas -- as edições especiais sobre o incêndio em Santa Maria e sobre a morte do presidente Hugo Chávez nos deram bastante orgulho. Criamos novas seções que privilegiam o  estilo dentro do texto, como "Caso Extraordinário" e "História Pessoal". Embora eu questione o termo jornalismo literário, acho que, em sua melhor acepção, ele se aplica ao que fazemos em Época atualmente.

Como foi o retorno do público dos livros que escreveu “O Burlador de Sevilha” e “Carnaval”?

Falei o tempo todo em prosa de não-ficção. Esses dois trabalhos são ficção pura, com imaginação até meio delirante. É algo que gosto de fazer e continuo fazendo. São textos com narrativas cruzadas, que estabelecem um jogo com o leitor -- que o tempo todo fica tentando saber o que é verdade e o que é mentira entre as histórias que são contadas. Numa crítica publicada na imprensa, o Moacyr Scliar chamou esse tipo de literatura de "pós-moderna". Também tenho algumas dúvidas em relação a essa classificação, mas acho que se aplica. Da mesma forma que o conceito de "jornalismo literário" se aplica à concepção atual de  Época.

Que conselhos daria a um estudante de jornalismo que deseja se tornar um profissional com sucesso na carreira?

A essência do jornalismo está em duas coisas: a paixão pela apuração exaustiva e detalhada e a paixão pelo bom texto. Quem não tem essas duas paixões não deve ser jornalista. Quem tem, deve cuidar de mantê-las ao longo da carreira para não se afastar da essência da profissão.

Gostaria de deixar um recado aos leitores do Arte de Escrever?

Passo a palavra para o Drummond: "Lutar com as palavras é a luta mais vã, no entanto lutamos mal rompe a manhã".

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