24/07/2013 14:10 - Atualizado em 25/07/2013 14:03

Crônica

Crônica: O segredo de Nelly

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Arte de Escrever
Crianças índias estudando (Foto: Internet)

Questões encrespavam pensamentos que vinham na cabeça da menina Nelly. No noticiário da TV, Nelly viu um índio pegar fogo e depois viu que um homem branco fez aquilo. Lembrou de quando era ainda mais criança, há uns dois anos, quando tinha 4 aninhos e aprendeu a cantiga do “um, dois, três indiozinhos, quatro, cinco, seis, indiozinhos...iam navegando pelo rio abaixo, quando o jacaré se aproximou e o pequeno bote dos indiozinhos, quase, quase virou”. Será que os índios são os bandidos? Pensou e não parava de pensar, até que travou e teve de consultar o conhecimento de um branco mais velho.

— Mamãe, por que maltratam os índios?

— De onde você tirou essa ideia, minha filha? Os índios são amigos.

— É que ontem eu vi gente botando fogo no índio e depois os jacarés viraram o bote do índio e a gente fala de índio e nunca vimos um índio. Quer dizer, tinha um índio tocando aquela flauta quando passeamos naquele lugar, mas ele parecia feliz.

— O índio estava aqui antes do homem branco. Daí os portugueses vieram e deram roupas e uma nova educação ao índio.

— Ele não ia para a escola antes?

— Sim... quer dizer... não! Os pais dos índios pequenos transmitiam conhecimentos aos seus filhos, entende? Não precisava de escola, era só viver, saber o suficiente para se alimentar, morar e cuidar da saúde.

— Nossa! A gente pode virar índio? Eu não gosto da escola e ainda tem o Mateus que fica tentando me empurrar e... por que o homem branco trabalha?

— Porque ele precisa pagar escola e bonecas para os filhos  Jacira estava ficando seca e muito vermelha de sentimentos mistos.

— Se a gente fosse índio não precisava ir à escola e os pais não precisavam pagar a escola. Se a gente plantasse, não precisava gastar dinheiro no Carrefour. Se a gente não gastasse dinheiro, não precisaria...

— Chega!  gritou a mãe, incontrolada, antes que a próxima previsível frase viesse. Como sua pequena Nelly, perto de completar os sete anos de idade, já se deparava com questões elementares e políticas de vida, questões que ela mesma demorou três décadas para formular e sofrer? As lembranças passavam irremediáveis e frias pela cabeça de Jacira, ela que teve amigos que apanharam e enlouqueceram por tentar fazer revolução. Como recompensa pela luta leva até hoje pancadas morais e remorso crônico, além de uma aspereza crítica e silenciosa ao ver situações das quais discorda, mas saca-lhes a imutabilidade.

Então a mãe, aturdida com os próprios pensamentos confusos, cegos e tristes de passado, e com a falta de respostas frente à perplexidade da menina, não teve mais forças e resolveu acabar com o papo. Nunca se esqueceria que ali estava começando a fornecer a necessária deseducação à sua filha, “para seu próprio bem”, como quem amputa meia perna de uma pessoa para não ter de amputar até a coxa.

— Nelly, diga um lugar que você gosta, diga para mim qual é a coisa que você mais gosta de fazer.

— Eu gosto do jogo de bater no jacaré naquele parquinho que a gente vai.

— Você deixaria de brincar para ser índio e viver na selva com um monte de bichos?

Nelly ainda dedicou um minutinho de tempo para refletir sobre a questão. Imaginou-se na selva, correndo e brincando nua e sem ter de ir na escola, o dia inteiro, todos os dias. Ia falar que sim, que topava ser uma indiazinha, mas hesitou ante o olhar firme de esfinge daquela branca que esperava uma resposta dela. Sem frustrar a mãe e doendo inexplicavelmente por dentro - nunca sentiu-se assim! - , Nelly baixou os olhos e fitou o chão. A cabeça balançava de lado a outro, fez sinal de não. Foi o primeiro dia que Nelly-menina conscientemente pensou no significado da palavra futuro, mas não de modo umbiguilista, e sim olhando através do outro seus limites, o que ela poderia ou não poderia ser, eis a questão que quando vem pega qualquer um para ter conversa séria com a realidade. Teve vontade de erguer a cabeça e não conseguiu. Teve vontade de sair correndo, mas seus pés pareciam ter se fixado para sempre no chão. Quase arrastando-se, a pequena foi até seu quarto pensar sobre o que ela pensaria depois dessa conversa de sins e nãos.

A partir daquele dia Nelly foi uma pessoa normal, teve escola, saúde e um bom emprego. Graças a Deus, porque também adquiriu uma religião, ela nunca mais voltou a pensar em questões que confundem pensamento. Viver se tornou tarefa fácil e até mesmo feliz. Nelly nunca vai pensar de novo que o homem branco gosta de atacar, não só índios, eles gostam de brigar, atacar, atacar, passatempo favorito essa brincadeira de machucar. Pode ser que Nelly vá satisfeitamente numa reta até o seu dia final, pode ser que um dia ela seja atacada e aí vai ocorrer uma outra morte em Nelly, desta vez mais profunda. Nelly deixou uma questão da infância mal-resolvida. Um Freud moderno ressuscitaria para nos dizer: o mal-estar na civilização é hereditário.

A Colaboradora do Portal, Marina Moura, é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe no colo enquanto digita seus textos.

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