18/08/2013 21:06 - Atualizado em 18/07/2016 10:41

Conto

Chegadas e partidas: Marcelo, Kleber e Flávio. Lembranças de algumas paixões

Jucelene Oliveira
Jucelene Oliveira
Arte de Escrever
Chegadas e partidas: as muitas fases de uma mesma história (Foto: Divulgação)

Os amigos o chamavam de Marcelinho. Juliana o conheceu na terceira série e ficou apaixonada até a quinta. Kleber lhe arrancou suspiros na sexta e sétima série e Flávio, o rapaz mais marcante do trio, na oitava e primeiro ano. As paixões da infância eram placebo.

De tempos em tempos ela se apaixonava de verdade, de maneira intensa e para sempre, como é próprio da adolescência em ebulição. Pelo menos era isso que sempre achava no instante em que estava vivendo aquela experiência. Antes de Marcelinho, Juliana já havia conhecido Jonas, quando ainda era criança.

Ele era irmão de sua colega Érica. Mas ela não sabia que eles eram irmãos. Sempre os via juntos no recreio e na hora da saída e pensava “o que ele viu na Érica? Ela nem tem os cabelos bonitos (mas tinha sim)”. Por fim, quando descobriu que se tratava de uma relação fraterna, perdeu o interesse pelo garoto... um jovem menino de 10 ou onze anos, de inteligência sofrível.

O tempo passou.

As amigas achavam Flávio o cara mais feio da escola, mas ela não se importava. Ela o achava diferente de todos e ele era aluno novo na turma, logo tinha mistérios a serem descobertos. Ela divagava pelo pátio imaginando mil coisas que faria com ele. Mas na realidade, nem sequer tinha amizade com o amado. Era amiga da irmã dele e até chegou a frequentar a casa da família para ajudar a amiga com alguns exercícios de recuperação. A mãe do rapaz era muito simpática; os irmãos falavam o necessário. Ele, às vezes, nem lá estava.

Não importava. Ela não estava à procura de hedonismo. Buscava fantasia, platonicismo. O legal mesmo era que estava conhecendo o espaço dele. Depois contava às amigas toda orgulhosa da realização.

Marcelo, o Marcelinho, gostava de uma música sertaneja-romântica que ela também gostava e que foi um sucesso na década de 90, mas que quando se tornou adolescente, quase adulta, se envergonharia só de pensar tê-la ouvido algum dia. Ele era inteligente, tinha o cabelo liso, quase lambido, usava aparelho nos dentes e era educado e de boa família. Só pensava em estudar e brincar na rua com os amigos. Jogava bola, tocava violão e falava de desenhos animados. O máximo que os dois conversaram ao longo da paixão existente ali, foram alguns poucos educados cumprimentos. Mas aquilo já representava muito para ela.

Kleber era loiro, alto, tinha um estereótipo agradável que despertava o interesse das garotas. Era todo metido a malandro, falava gírias, jogava vôlei, ficava com algumas meninas na frente dela, sem saber de seu amor e seus sonhos vindouros. Morava próximo à casa de um tio de Juliana, inclusive numa enorme e pomposa casa. Era filho único e os pais o tratavam como um príncipe.

Sempre que Juliana ia visitar os tios – e isso passou a ser bem mais frequente depois que soube que ele morava próximo – sempre dava um jeitinho de passar por perto da casa, às vezes simulava um encontro por acaso com o rapaz e puxava um "oi".  Batata! Ele era simpático e sorridente com ela. Será que isso significava que correspondia seu interesse?

Uma vez ela soube que ele estava de paquera com uma garota da escola que era conhecida pela fama de “fácil” e ficou indignada com aquilo. A garota já tinha namorado vários rapazes. O que ele podia ter visto nela? Ok, ela era muito bonita e popular. Podia não ser a garota certa para namoro, mas era sem dúvida a certa para exibir na roda de amigos. Constatou isso com certa melancolia e tristeza.

Kleber soube do amor que ela tinha por ele. Uma amiga em comum fez a revelação. O estranho é que aparentemente ele demonstrou ter gostado da novidade. Começou a olhá-la de forma diferente e houve uma vez em que ela faltou à aula três dias seguidos por estar doente e ele quis saber o motivo.

Por fim, ela não sabia se era bom ou ruim ele saber de seu segredo, pois antes, quando o via com outras garotas não demonstrava hesitação e depois que a verdade veio à tona, parece ter surgido um constrangimento. Certa vez jogavam vôlei na quadra da escola em times adversários. Quando ela sacou, roubou toda a atenção do rapaz. Os colegas tentaram passar a bola de volta, mas não conseguiram. A equipe dela fez ponto. Os colegas do time dele ficaram furiosos, mas ela sorriu e cantarolou por uma semana ao se lembrar do episódio.

Flávio conversava muito com uma amiga da sala dele chamada Ângela e os colegas viviam tirando onda com isso. A menina era bonita, alta como ele, magra e tinha os cabelos compridos e lisos. Bem diferente de nossa protagonista.

Marcelinho era o mais singelo dos três; Kleber o mais atraente e Flávio o mais acessível. Cada um, a seu jeito, teve valor e importância nos sonhos daquela menina. Nas idas e vindas da paixão, nas marcas da passagem do tempo.

Marcelinho foi amigo do irmão de Juliana por muitos anos. Talvez tenha uma banda de rock, trabalhe com informática ou numa loja de sapatos; ela soube que Kleber se converteu, se casou e deixou de ser aquele garoto que só pensava em paquerar várias meninas; Flávio sumiu do mapa. Não teve mais notícias dele.

Não há muito tempo, Juliana passou por acaso no bairro onde Flávio morava e se deparou com a pracinha em frente à casa dele, onde descia do ônibus quando ia visitar a amiga. Mas já não se lembrava mais do número da casa da família. Talvez nem morassem mais ali.

O fato é que a situação inusitada desencadeou nela a lembrança de momentos felizes, ousados, difíceis, intensos... e até conflitantes... e com um detalhe bastante pertinente: não há tanto tempo assim.

Confira abaixo a canção "Encontros e despedidas" de Maria Rita, que ilustra bem o conto acima: 

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