26/10/2013 16:03 - Atualizado em 26/10/2013 16:13

Crônica

Desacontecimento

Marina  Venuto
Marina Venuto
Arte de Escrever
Grandes homens são aqueles que reconhecem a soberania do Criador (Foto: Divulgação)

É véspera do dia das crianças e um senhor (de meia idade) carrega seu carrinho de doces e salgadinhos com dificuldade. Pela porta do meio, ele sobe o carrinho e, depois, entra pela porta da frente para pagar a passagem. Este senhor não é um desconhecido. Sempre o vejo subir com seu carrinho pela porta do meio, entrar pela porta da frente e pagar sua passagem no mesmo ônibus que, diariamente, também me conduz ao trabalho.

Seu destino é o ponto de ônibus frequentado pelos funcionários de três grandes empresas ligadas, principalmente, ao comércio eletrônico. Ao chegar, estaciona seu carrinho, senta em um dos bancos e faz a venda offline das guloseimas em horário comercial.

Entre os embarques e desembarques dos operários, esse senhor vai ganhando seus trocados. A dificuldade que enfrenta ao subir o carrinho pela porta é de constranger. Por sorte, tem sempre algum passageiro por perto disposto a lhe doar um braço, tornando a subida e a descida do "veículo" de doces menos amarga. Escuto uma passageira perguntar o preço de um dos chicletes que consta no carrinho e, com a convicção de um bom vendedor, responde: “TRAIDENTE é cinquenta centavo”. Assim mesmo, na pronúncia errada que a vida lhe sugeriu.

Era uma sexta-feira e voltávamos cansados do trabalho, eu com minha bolsa e ele, com seu carrinho ambulante. Após a via sacra da subida, aquele senhor sentou-se atrás de mim, no lugar reservado aos deficientes físicos, e iniciou uma conversa com o cobrador sentado a nossa frente. Para minha surpresa, ele começou a contar sua história de vida, uma joia para quem gosta de ouvir a respeito da vida anônima e se espantar com ela (legado permanente da jornalista e escritora Eliane Brum).

Entre a conversa de dois desconhecidos, meus ouvidos se viam prontos para o jardim daquele dia. Numa viagem de 15 minutos descobri o que era mais ou menos óbvio sobre aquele humilde senhor: uma vida sofrida. O primeiro dado é que ele optou pelas balas da bomboniere às do mundo do crime. O fato de o irmão ser presidiário diz sobre a sua história, porque também se viu envolvido em roubos – na casa dos milhões – mas olhou mais de perto e viu que aquilo não era bom.

Após a decisão de abandonar o crime, sofreu o que sofre todo ser humano quando pretende viver de seu próprio suor: precisou trabalhar. Possivelmente sem instrução profissional ou escolar foi para as ruas recolher latinhas de refrigerante e papelão. O trabalho é o menos reconhecido nos tempos e cidades de hoje, pois são mendigos e moradores de rua que figuram na função de fuçar os lixos e garimpar o que a sociedade já descartou. Por isso, optar por esse tipo de tarefa é também assumir o posto dos marginalizados e se vê entre aqueles que sobrevivem dos restos.

A evolução foi um carrinho de doces que carrega para lá e para cá em busca de quem quer matar a fome com o que a indústria de alimentos inventou para atrair. Primeiro, estômagos infantis. Mas aquele senhor sabe, como todo mundo, que trabalhadores adultos e esfomeados não ficam exigentes com o cardápio. Beliscam o que veem pela frente. Quando seu estômago reclamou a ausência do café da manhã, é o próprio dono do carrinho que se rende ao salgadinho de camarão.

O fato não escapou aos meus olhos em um dia que o flagrei saciando sua fome. É graças a essas fomes cotidianas, semelhantes, que seu negócio sobrevive. Na conversa com o cobrador, confessou ter passado vários dias inteiros à base de água porque não tinha o que comer. Embora tenham sido dias passados. Agora tinha seu carrinho de doces e tudo havia melhorado um pouco. Ao olhar a simplicidade das roupas e a dicção engasgada deste senhor, pouco valorizaríamos. Mas ele não. Apesar de toda dificuldade que ainda o envolvia e transparecia, teve a ousadia de dizer: ‘Deus é Deus’, fazendo referência ao sustento do Soberano por ele e agradecendo pela vida que tinha, ainda que difícil, mas longe do crime.

Chegamos ao terminal de ônibus e era minha hora de descer. Abandonei aquele jardim com a consciência cheia, um pouco envergonhada pelas reclamações inúteis e falta de sensibilidade com a vida concedida. Aquele senhor permanece lá, com sua bomboniere ambulante, sua história e gratidão.

O ônibus, que até então estava vazio e pareceu encher de repente pela narrativa inesperada, volta a ganhar almas operárias.Os trabalhadores, vindos de outros pontos e paragens, aos poucos preenchem o espaço com seu cansaço e sua fome. É o perfil de clientes ideal para o carrinho de doces. Não sabem do fato, mas aquele que pode alimentar seus estômagos famintos com algumas guloseimas é alguém que sabe agradecer a Deus pelo dia, simplesmente porque pode sentar no banco de um ônibus ao invés do cimento duro da prisão.

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